Marvel’s Wolverine
Uma aventura brutal e muito divertida, mas que precisava de mais polimento para justificar seu preço.
Marvel’s Wolverine me deixou com uma sensação bastante clara depois de terminar a campanha: é um jogo que consegue acertar justamente naquela que considero uma das coisas mais importantes em um videogame, a gameplay, mas que infelizmente não apresenta o mesmo nível de qualidade quando olhamos para vários outros aspectos da experiência. Eu me diverti bastante durante a campanha e definitivamente não considero Wolverine um jogo ruim, muito pelo contrário, mas estamos falando de uma produção da Insomniac Games, publicada pelo PlayStation e vendida por cerca de R$ 400 no Brasil. Por esse valor, naturalmente a expectativa é muito maior.
A gameplay é o grande destaque
Para mim, a gameplay é facilmente um dos melhores aspectos de Marvel’s Wolverine. A Insomniac conseguiu transmitir muito bem aquela sensação de brutalidade que esperamos quando pensamos no personagem. Os golpes têm impacto, os combos são legais, as habilidades de Wolverine funcionam muito bem dentro das batalhas e existe uma satisfação enorme em simplesmente entrar em uma área cheia de inimigos e começar a destruir todo mundo. A jogabilidade é rápida, agressiva e principalmente divertida, e isso faz uma enorme diferença durante a campanha.
Outro ponto que funciona muito bem é a violência. Marvel’s Wolverine é sangrento, tem bastante gore e não tenta suavizar aquilo que faz parte da identidade do personagem. Você realmente sente que está controlando alguém com garras de adamantium, e os confrontos conseguem entregar aquela sensação de poder e brutalidade que eu esperava de um jogo do Wolverine. Quando o combate começa, o jogo está no seu melhor momento.
A história é previsível demais
Já na história minha opinião é mais dividida. Sendo bem sincero, achei o roteiro bastante clichê e previsível. O jogo praticamente deixa na sua cara durante vários momentos aquilo que vai acontecer depois, então dificilmente existe aquela sensação de surpresa ou alguma grande revelação capaz de pegar o jogador desprevenido. Como alguém que conhece Wolverine principalmente através dos filmes e nunca foi realmente um leitor dos quadrinhos, eu até achei a história legalzinha e consegui aproveitar a campanha normalmente.
Por outro lado, consigo entender as críticas de quem acompanha Wolverine há muitos anos nos quadrinhos. Esse público conhece muito melhor os personagens, as histórias e todo o universo envolvendo Logan, então naturalmente pode perceber problemas e escolhas que para alguém como eu acabam passando mais facilmente. Mesmo assim, para mim, uma história previsível não é suficiente para destruir um jogo quando aquilo que você passa a maior parte do tempo fazendo continua sendo divertido.
Nem todo jogo precisa viver pela história
Existe uma coisa que me incomoda bastante nas discussões atuais sobre videogame: parece que absolutamente tudo precisa ter uma lore gigantesca por trás. Tudo precisa explicar alguma coisa, todo personagem precisa ter dez páginas de história e qualquer jogo parece precisar apresentar uma narrativa extremamente complexa para ser considerado bom. Não estou dizendo que história não importa. Uma boa história consegue elevar muito um jogo e existem títulos que são lembrados justamente pela narrativa, mas não acho que ela deveria automaticamente ser considerada mais importante do que a jogabilidade.
Antigamente existiam vários jogos em que você simplesmente pegava o controle e jogava. Muitas vezes você nem estava preocupado com o motivo daquele personagem estar naquela situação ou com uma explicação gigantesca para tudo aquilo. O que importava era se a gameplay era boa, se o jogo prendia você e se você estava se divertindo. Para mim isso continua sendo fundamental. Videogame precisa ser divertido de jogar. Por isso consigo relevar parte dos problemas da história de Wolverine: mesmo quando o roteiro não consegue me surpreender, eu continuo querendo jogar porque gosto do combate.
O maior problema está na falta de polimento
O ponto que realmente me incomodou em Marvel’s Wolverine não foi a história. Foi a falta de acabamento. Durante a campanha existem vários momentos em que fica aquela sensação de que determinadas coisas precisavam de mais tempo, mais cuidado e mais refinamento. A inteligência artificial dos inimigos, por exemplo, simplesmente parece desligar em várias situações. Isso prejudica principalmente o stealth, que para mim é facilmente uma das partes mais fracas do jogo.
O stealth é muito permissivo. Você consegue cometer erros enormes e muitas vezes parece que simplesmente não aconteceu nada. Inimigos não respondem da maneira que deveriam, perdem você facilmente e aquela tensão que deveria existir durante uma sequência furtiva acaba desaparecendo. O maior problema é que acertar ou errar muitas vezes não muda praticamente nada. O jogo simplesmente continua. Para mim, isso tira completamente o peso desse sistema.
Os trajes poderiam oferecer muito mais
Também senti falta de algo que existia no primeiro Marvel’s Spider-Man da própria Insomniac. Naquele jogo, vários trajes estavam associados a habilidades especiais, o que fazia com que desbloquear uma nova roupa tivesse um impacto que ia além da aparência. Marvel’s Wolverine possui vários trajes muito legais visualmente, mas basicamente eles ficam apenas na parte estética. Não precisava copiar exatamente o mesmo sistema de Spider-Man, mas seria interessante que alguns trajes oferecessem habilidades diferentes, modificações ou qualquer característica que incentivasse o jogador a experimentar outras opções.
Isso resume bem uma parte da minha sensação com o jogo: existem várias coisas boas, mas constantemente parece que alguma coisa poderia ter sido um pouco mais desenvolvida.
O peso de ser um jogo da Insomniac
Também precisamos considerar quem está fazendo esse jogo. Estamos falando da Insomniac Games, um dos principais estúdios do PlayStation e responsável por uma franquia como Marvel’s Spider-Man. Naturalmente, quando aparece um projeto desse tamanho envolvendo Wolverine, a expectativa dos jogadores sobe muito. Os jogos da Sony criaram durante anos uma reputação de produções extremamente polidas, cheias de pequenos detalhes e com um padrão técnico muito alto.
Acredito que boa parte das reclamações sobre Marvel’s Wolverine nasce justamente daí. Não porque o jogo seja ruim, mas porque as pessoas esperavam muito mais. Quando você encontra inteligência artificial problemática, stealth pouco desenvolvido, sistemas que poderiam ser mais profundos e pequenos detalhes sem aquele refinamento esperado, fica a sensação de que faltou carinho. A base do jogo é boa, mas faltou aquela última camada de polimento que poderia transformar Wolverine em algo realmente especial.
R$ 400 muda completamente essa discussão
E então chegamos ao maior problema para mim: o preço. Marvel’s Wolverine custa aproximadamente R$ 400 em sua edição padrão, e isso muda completamente a forma como eu olho para todos esses defeitos. Quando você cobra esse valor por um jogo, o jogador naturalmente espera um produto extremamente refinado. Não estou dizendo que um jogo precisa ser absolutamente perfeito porque custa caro, mas certamente espero muito mais cuidado quando estamos falando de um lançamento nessa faixa de preço.
Por R$ 400, aquela inteligência artificial ruim incomoda mais, o stealth mal desenvolvido incomoda mais, os detalhes que poderiam ter recebido atenção incomodam mais e todas as oportunidades perdidas ficam muito mais evidentes. Para mim, Marvel’s Wolverine simplesmente não é um jogo que vale R$ 400.
Agora, se estamos falando de uma promoção por algo próximo de R$ 150, aí a conversa muda completamente. Nesse preço eu acredito que alguém que gosta de Wolverine ou de jogos de super-heróis provavelmente vai jogar, se divertir bastante e terminar a campanha sem aquela sensação de ter sido passado para trás. O problema não é existir diversão no jogo. Ela existe. O problema é cobrar preço de uma experiência praticamente impecável por um jogo que claramente precisava de mais acabamento.
Veredito
Apesar de todas essas críticas, Marvel’s Wolverine está longe de ser um jogo que eu recomendaria deixar passar completamente. Eu me diverti bastante durante a campanha. A gameplay é muito boa, os combos são legais, as habilidades de Wolverine funcionam, a violência combina perfeitamente com o personagem e quando o jogo simplesmente deixa você soltar Logan contra vários inimigos ele consegue ser extremamente divertido.
O problema é que tudo aquilo que está ao redor dessa gameplay não acompanha o mesmo nível. A história poderia surpreender mais, a inteligência artificial precisava ser melhor, o stealth precisava funcionar de maneira mais convincente, os trajes poderiam oferecer alguma coisa além da estética e principalmente o jogo precisava de mais tempo de polimento.
Se você gosta de jogos de super-heróis ou é fã do Wolverine, acredito que vale a pena jogar. Só não acho que valha a pena pagar R$ 400 por essa experiência. Em uma boa promoção, principalmente perto dos R$ 150, é muito mais fácil recomendar.
Marvel’s Wolverine acerta justamente naquilo que mais importa para mim: é divertido de jogar. O problema é que faltou cuidado em praticamente tudo aquilo que deveria transformar essa boa gameplay em um jogo realmente extraordinário.