Dante’s Inferno ganha versão nativa para PC graças à recompilação do Xbox 360
Projeto Hell’s Gate Recomp utiliza o ReXGlue para transformar o executável original do Xbox 360 em código executado diretamente no PC, dispensando emuladores como Xenia e reduzindo consideravelmente o peso necessário para rodar o clássico
Dante’s Inferno finalmente está rodando diretamente no PC, mais de 16 anos depois de seu lançamento original. A novidade não veio da Electronic Arts ou da Visceral Games, mas de um projeto independente chamado Hell’s Gate Recomp, cuja primeira versão pública foi disponibilizada nesta semana.
O projeto utiliza o ReXGlue para realizar uma recompilação estática da versão de Xbox 360. Na prática, em vez de emular o hardware do console, o sistema converte antecipadamente o executável PowerPC XEX em código C++ que pode ser executado no computador. O próprio projeto descreve o resultado como um port de Xbox 360 para PC baseado em recompilação estática.
Isso também explica por que a solução pode funcionar em computadores consideravelmente mais modestos do que aqueles normalmente necessários para emular um Xbox 360. Relatos divulgados após o lançamento destacam justamente o desempenho em configurações inferiores às normalmente utilizadas para emulação.
Não é simplesmente um emulador de Xbox 360
Essa é a principal diferença do projeto.
Para jogar um título de Xbox 360 através de um emulador como o Xenia, o computador precisa reproduzir em software diversos comportamentos do hardware original enquanto o jogo está sendo executado.
A recompilação estática trabalha de maneira diferente.
O ReXGlue converte antecipadamente o código PowerPC presente no executável XEX do Xbox 360 para C++ portátil, permitindo que ele seja compilado para computadores modernos. Segundo a documentação do Hell’s Gate Recomp, não existe emulação tradicional nem compilação JIT acontecendo durante a execução.
No Windows, o projeto utiliza Direct3D 12. O ReXGlue também possui suporte a Linux através de Vulkan, embora o projeto atual de Dante’s Inferno tenha o Windows 10/11 x64 como plataforma-alvo documentada.
Em termos simples: em vez de fazer o PC se comportar como um Xbox 360, o projeto está traduzindo o software do Xbox 360 para algo que o computador moderno consegue executar diretamente.
É justamente essa abordagem que torna os projetos de recompilação tão interessantes.
Dante’s Inferno já está jogável
O projeto não é apenas uma demonstração técnica.
A documentação atual confirma que Dante’s Inferno inicializa e roda, inclusive depois que problemas relacionados às instruções VMX/AltiVec do processador PowerPC foram solucionados no ReXGlue 0.10.0. Problemas que provocavam corrupção nos vídeos FMV também foram identificados e corrigidos durante o desenvolvimento.
O desenvolvedor responsável pelo projeto anunciou a primeira versão pública em 2 de setembro e confirmou que o jogo pode ser jogado do início ao fim, embora tenha alertado que essa ainda é uma versão inicial e que bugs devem ser esperados.
Isso é importante porque algumas publicações nas redes sociais estão descrevendo o projeto simplesmente como “totalmente funcional”.
Ele realmente já funciona e pode ser jogado, mas ainda não estamos diante de um port completamente finalizado e polido.
Ainda existem limitações
A principal delas atualmente está na resolução.
O jogo inicia utilizando a resolução padrão da versão original de Xbox 360, 720p.
Segundo o próprio desenvolvedor, resoluções maiores já conseguem iniciar, mas podem provocar crashes devido a conflitos envolvendo correções implementadas para evitar problemas gráficos durante a reprodução das cutscenes.
Uma solução está planejada para uma próxima versão.
O projeto também já possui suporte completo a controles, permitindo jogar com praticamente qualquer gamepad.
Entretanto, os ícones exibidos dentro do jogo ainda são aqueles do controle do Xbox 360.
O desenvolvedor pretende adicionar futuramente detecção automática e ícones específicos para Xbox 360, Xbox One, DualShock 3, DualShock 4 e DualSense.
Há ainda planos para suporte a proporções como 21:9 e 32:9, e o desenvolvedor comentou que 16:10 e 4:3 também poderão ser adicionados durante esse trabalho.
A vantagem pode aparecer justamente no desempenho
Essa tecnologia também pode resolver um dos maiores problemas encontrados por quem tenta preservar jogos antigos através da emulação: o custo computacional.
Emulação exige que um computador moderno reproduza o comportamento de uma arquitetura completamente diferente em tempo real.
Isso pode fazer com que um jogo originalmente desenvolvido para uma máquina de 2005 exija um processador moderno relativamente poderoso para funcionar corretamente através de um emulador.
A recompilação estática elimina boa parte dessa camada.
Publicações que testaram ou divulgaram o projeto destacaram que Dante’s Inferno consegue funcionar em configurações consideravelmente inferiores às normalmente necessárias para emular a versão de Xbox 360.
Relatos da comunidade também começaram a aparecer imediatamente após o lançamento, embora resultados específicos de FPS devam ser tratados com cautela porque variam conforme hardware e configuração.
Portanto, é correto dizer que existe potencial para desempenho significativamente melhor do que através da emulação, mas ainda é cedo para estabelecer requisitos definitivos ou prometer determinado número de FPS para qualquer computador.
O jogador ainda precisa possuir os arquivos originais
Existe outro detalhe fundamental.
O repositório do Hell’s Gate Recomp não distribui Dante’s Inferno.
Ele contém o código, ferramentas e estrutura necessários para realizar a recompilação, mas os arquivos protegidos por direitos autorais continuam pertencendo aos respectivos detentores.
Para montar o projeto, o usuário precisa fornecer localmente os arquivos extraídos de sua própria cópia da versão de Xbox 360, incluindo o arquivo default.xex.
O próprio desenvolvedor deixa explicitamente o diretório contendo esses arquivos fora do repositório público.
Isso diferencia a ferramenta da distribuição não autorizada de uma cópia completa do jogo.
Dante’s Inferno nunca ganhou versão oficial para PC
É justamente isso que torna o projeto especialmente interessante.
Lançado originalmente em 2010, Dante’s Inferno chegou principalmente ao Xbox 360 e PlayStation 3, além de receber uma versão diferente para PSP.
O jogo desenvolvido pela Visceral Games transformou elementos da Divina Comédia, de Dante Alighieri, em um hack and slash bastante inspirado pela estrutura dos antigos God of War.
Apesar de ter conquistado seu próprio grupo de fãs, uma versão oficial para computadores nunca aconteceu.
Durante todos esses anos, portanto, jogar aquela versão em um PC dependia essencialmente da utilização de emulação.
O Hell’s Gate Recomp muda essa situação pela primeira vez.
O mais interessante pode ser o futuro da recompilação
Dante’s Inferno é apenas um exemplo de uma tendência que vem ganhando espaço na preservação de jogos.
Projetos de recompilação tentam transportar títulos originalmente presos a determinado hardware para plataformas modernas sem precisar recriar integralmente o console através de emulação.
Isso não significa que qualquer jogo de Xbox 360 poderá simplesmente receber um botão mágico de “converter para PC”.
Cada título possui particularidades, APIs, comportamentos, instruções e problemas específicos que ainda precisam ser estudados e corrigidos.
O próprio Dante’s Inferno enfrentou problemas com instruções PowerPC VMX, reprodução de vídeos e renderização antes de atingir seu estado atual.
Mas o fato de um jogo comercial complexo do Xbox 360 já estar rodando dessa maneira demonstra o potencial da tecnologia.
Minha opinião
Essa é uma das tecnologias mais interessantes que estão aparecendo para preservação de jogos.
Dante’s Inferno é um exemplo perfeito porque estamos falando de um jogo lançado há mais de uma década que simplesmente nunca ganhou uma versão oficial para PC.
A emulação continua sendo extremamente importante e provavelmente continuará sendo por muito tempo, mas recompilar esses jogos abre outra possibilidade.
E o que mais chama atenção é justamente o desempenho.
É curioso pensar que um computador pode ter dificuldade para emular perfeitamente um Xbox 360, mas conseguir executar uma versão recompilada daquele mesmo jogo utilizando muito menos recursos.
Ainda existem problemas para resolver e seria errado vender essa primeira versão como um port completamente finalizado. Mas o projeto já saiu da fase de “será que funciona?” para “está funcionando e agora precisa ser aprimorado”.
Para Dante’s Inferno, isso já é uma enorme conquista.