God of War Laufey cobra €149,99 por caixa de colecionador que não inclui nem o jogo — isso já virou chacota

Sony vende estátua, cartas e minilivro de arte em um pacote premium, mas quem quiser jogar terá que comprar God of War Laufey separadamente.

God of War Laufey cobra €149,99 por caixa de colecionador que não inclui nem o jogo — isso já virou chacota
PLAYSTATION
Escrita por Felipe 13/10/2026, 12:28

A indústria dos games conseguiu transformar uma coisa que deveria ser óbvia em luxo: comprar uma edição de colecionador de um videogame e receber o próprio videogame dentro dela. God of War Laufey é o novo exemplo dessa tendência. A Sony colocou em pré-venda a chamada God of War Laufey Collector Box, um pacote oficial de colecionador recheado de itens físicos, mas que não inclui o jogo — nem em disco, nem através de um código digital. A própria página oficial da PlayStation avisa de maneira explícita: “God of War Laufey game sold separately”. PlayStation E existe uma correção importante em relação ao preço que está circulando. A caixa está oficialmente listada por €149,99 na Europa e £129,99 no Reino Unido. Até o momento da publicação desta matéria, não encontramos um preço oficial americano de US$ 149,99. Portanto, não seria correto afirmar que ela custa exatamente 150 dólares nos Estados Unidos. O absurdo continua o mesmo: estamos falando de um produto premium na faixa de 150 euros que ainda exige a compra separada do jogo. PlayStation

💬 Você compra uma caixa oficial de colecionador de God of War Laufey por €149,99, abre a embalagem e encontra estátua, cartas e livro de arte. Só existe uma coisa que você não encontra: God of War Laufey.

O que vem dentro da Collector Box?

A página oficial da PlayStation lista apenas três itens principais: uma estátua de resina iluminada de Faye, um baralho Oracle com 51 cartas e um minilivro de arte. A estátua representa a protagonista em ação, enquanto as cartas possuem ilustrações inspiradas em sua jornada e o pequeno artbook reúne artes conceituais selecionadas pela equipe de desenvolvimento. É um conjunto bonito e claramente pensado para fãs da franquia. O problema não está na qualidade ou na existência dos brindes; o problema é vender tudo isso como um grande produto de colecionador ligado a um jogo e retirar justamente o produto central dessa coleção. PlayStation Imagem da matéria A própria arte promocional que acompanha a caixa deixa isso estampado na parte inferior: o jogo de God of War Laufey é vendido separadamente. Não existe disco escondido na embalagem, não existe código dentro da caixa e não existe versão digital incluída. Você compra os itens e depois abre a carteira novamente caso realmente queira jogar. PlayStation

E isso fica ainda pior quando olhamos para o preço do jogo

God of War Laufey será lançado exclusivamente para PS5 em 16 de fevereiro de 2027. No Brasil, a Edição Standard está em pré-venda por R$ 399,90, enquanto a Digital Deluxe custa R$ 455,90. A Collector Box ainda não foi anunciada oficialmente para venda brasileira pela PlayStation Direct. Portanto, quem importasse o produto precisaria pagar pela caixa, possíveis impostos e frete e ainda adquirir o jogo separadamente. PlayStation.Blog BR Ou seja, não estamos discutindo um produto barato de merchandising vendido por algumas dezenas de dólares. Estamos falando de um conjunto premium associado diretamente a um dos maiores nomes da PlayStation. O fã disposto a desembolsar esse dinheiro é justamente aquele que provavelmente mais valoriza ter uma edição completa daquele lançamento. E é exatamente esse consumidor que recebe uma caixa sem o próprio jogo.

A Sony chama de “Collector Box”, não de “Collector's Edition”

Existe uma defesa técnica que provavelmente aparecerá nessa discussão: oficialmente, a Sony utiliza o nome Collector Box, ou “Caixa de Colecionador”, e não Collector's Edition. Essa distinção existe e precisa ser mencionada. Na prática, a empresa está vendendo um pacote separado de produtos colecionáveis, e não prometendo formalmente uma edição do jogo que posteriormente teve o disco retirado. PlayStation Só que isso também evidencia como a indústria encontrou uma maneira conveniente de normalizar essa prática. Basta separar o jogo dos itens, mudar o nome de “edição” para “caixa” e vender os dois produtos individualmente. Para o consumidor, a conta continua sendo exatamente a mesma: se você quer o pacote completo com os itens de colecionador e o videogame que dá sentido a todos eles, precisa fazer duas compras.
💬 Chamar de “Collector Box” resolve a semântica, mas não resolve o problema para o consumidor. O boneco está lá, as cartas estão lá, o artbook está lá. O jogo que dá nome à caixa é que ficou de fora.

O próprio God of War já fez muito melhor

O mais complicado é que nem precisamos buscar outra empresa para encontrar uma comparação. Em 2022, God of War Ragnarök recebeu uma Collector's Edition oficial que também causou críticas por não trazer um disco físico, mas pelo menos incluía um código para resgatar o jogo completo no PS4 e PS5. Além dele, a caixa vinha com Steelbook, esculturas dos gêmeos Vanir, dados, uma réplica de Mjölnir e diversos conteúdos digitais. A própria Sony detalhou oficialmente tudo isso na época. PlayStation.Blog Portanto, mesmo naquele modelo controverso de “Steelbook sem disco”, o consumidor ainda estava comprando uma edição que realmente incluía God of War Ragnarök. Agora demos mais um passo: a caixa de Laufey elimina até o código. Isso mostra como essas práticas vão sendo empurradas aos poucos. Primeiro desaparece o disco, mas o código continua. Depois desaparece o código também e o jogo passa a ser uma compra separada. Se o consumidor continuar aceitando sem questionar, qual será a próxima etapa?

E infelizmente God of War Laufey não está sozinho

Essa não é uma invenção exclusiva da Sony. A indústria vem testando modelos semelhantes. A Rockstar, por exemplo, anunciou para GTA VI a The Goodtime State – Vice City Collection por nada menos que US$ 399,99. É uma gigantesca caixa de colecionáveis com figura, óculos Oakley, bolsa, boné, copo, chaveiros, pôster, pins e vários outros itens. E adivinhe? GTA VI também é vendido separadamente. Isso está escrito pela própria Rockstar. Rockstar Games A diferença de conteúdo e preço entre esses produtos pode ser enorme, mas a filosofia é a mesma: transformar a coleção física em uma categoria independente e cobrar o jogo à parte. Em vez de “a edição mais completa do jogo”, passamos a ter uma caixa de merchandising que exige outra compra para finalmente existir um videogame no meio da história. É uma tendência extremamente conveniente para as empresas porque permite monetizar duas vezes exatamente o público mais apaixonado pela franquia.

Quem compra edição de colecionador é justamente o fã que mais gasta

Esse é um ponto que torna essa estratégia ainda mais difícil de defender. O consumidor comum provavelmente compra a edição Standard, espera uma promoção ou simplesmente joga quando consegue. Quem compra uma edição de colecionador é outra categoria de consumidor: é a pessoa disposta a pagar muito mais porque gosta daquela franquia, quer uma estátua, quer uma caixa bonita, quer colocar o produto na estante e quer possuir algo especial relacionado ao lançamento. Esse público já aceita pagar um valor premium. Então qual é exatamente a justificativa para tirar o jogo do pacote? Não estamos pedindo um brinde gratuito. Estamos falando de um produto de €149,99 chamado God of War Laufey Collector Box. Incluir pelo menos um código digital não mudaria a logística da caixa, não exigiria espaço físico significativo e faria o pacote voltar a possuir aquilo que deveria ser o elemento mais básico possível.

E aqui a discussão sobre mídia física fica ainda mais irônica

Existe ainda uma ironia adicional. A Sony já anunciou que deixará de produzir discos para novos lançamentos de PlayStation a partir de janeiro de 2028. God of War Laufey chega antes disso e terá uma edição Standard física, portanto ainda é possível comprar o jogo em disco. Só que o produto voltado exatamente para os colecionadores não traz esse disco. Quem quiser a Collector Box e também quiser manter uma cópia física terá que comprar os dois separadamente. PlayStation™Store É uma lógica completamente invertida. O consumidor que valoriza uma edição física especial é justamente aquele com maior probabilidade de valorizar também o jogo físico. Em vez de oferecer a experiência definitiva para esse público, a empresa vende os objetos de um lado e o videogame do outro.

“Mas assim o comprador escolhe físico ou digital”

Essa provavelmente é a melhor defesa que pode ser feita desse modelo. Ao não incluir o jogo, a empresa permite que cada consumidor decida se quer comprar a Standard física ou alguma edição digital separadamente. Também evita criar diferentes versões da Collector Box dependendo do mercado ou formato. É uma conveniência logística real. Mas existe uma solução extremamente simples: incluir um código da versão Standard, como aconteceu com Ragnarök, ou oferecer diferentes SKUs da caixa. Outra opção seria vender a Collector Box por um valor significativamente menor e deixar absolutamente claro que estamos falando apenas de merchandising. O que incomoda é cobrar preço premium e normalizar que nem o item principal esteja presente.

Isso só continua acontecendo porque existe comprador

No fim, nenhuma empresa cria esse tipo de produto por caridade. Se essas caixas continuarem esgotando, outras empresas olharão para os resultados e perceberão que existe um público disposto a pagar centenas de dólares ou euros por colecionáveis e depois pagar novamente pelo videogame. É assim que práticas ruins deixam de ser exceção e viram padrão. Microtransações seguiram esse caminho. Acesso antecipado pago seguiu esse caminho. Edições Deluxe seguiram esse caminho. Agora estamos vendo cada vez mais “edições” e caixas de colecionador nas quais o jogo passou a ser opcional — para a empresa, obviamente, porque para quem pretende realmente jogar ele continua sendo obrigatório.
💬 As empresas testam até onde podem ir. Quando o consumidor aceita pagar mais recebendo menos, a próxima empresa não pergunta “isso é justo?”. Ela pergunta “quanto também podemos cobrar?”.

Minha opinião

Para mim, isso é uma chacota. Eu consigo entender perfeitamente vender uma estátua separadamente. Consigo entender vender um artbook separado. Quer fazer uma linha de produtos de God of War com cartas, bonecos, camisetas e qualquer outro objeto? Faça. Não existe problema nenhum nisso. Agora montar uma Collector Box oficial de God of War Laufey, cobrar €149,99 e escrever lá embaixo que God of War Laufey é vendido separadamente é o retrato de uma indústria que começou a descobrir até onde consegue esticar a boa vontade do consumidor. E o pior é que estamos falando justamente do fã mais dedicado. É a pessoa que quer colocar uma estátua da Faye na estante. É a pessoa que quer guardar a caixa. É a pessoa que compra o baralho e o livro de arte. Essa pessoa provavelmente será uma das primeiras a comprar o jogo também. Em vez de recompensar esse consumidor pelo dinheiro extra que ele está disposto a gastar, a lógica agora parece ser justamente extrair ainda mais dele. God of War Ragnarök ao menos incluía o jogo completo em código. Quatro anos depois, chegamos ao ponto em que ele simplesmente desapareceu da caixa. Não é falta de espaço. Não é impossibilidade técnica. Não é porque estamos falando de plataformas diferentes — Laufey é exclusivo de PS5. É uma decisão comercial. E esse é exatamente o tipo de decisão que o consumidor deveria criticar.
💬 Uma caixa de colecionador de um videogame deveria começar pelo videogame. Todo o resto deveria ser o extra. Quando o jogo vira o “extra vendido separadamente”, alguma coisa está completamente invertida.

FONTES CONSULTADAS