Hideki Kamiya manda recado para nova CEO do Xbox e quer ressuscitar Scalebound: “Vamos fazer acontecer”
Criador de Bayonetta afirma estar “100% sério” sobre terminar o projeto cancelado e aproveita mudança na liderança do Xbox para falar diretamente com Asha Sharma; presidente da Clovers também apoia a ideia
Scalebound está morto há mais de nove anos, mas Hideki Kamiya definitivamente ainda não desistiu do jogo.
Em uma nova entrevista, o criador de Bayonetta, Devil May Cry e Okami voltou a falar sobre um possível retorno do ambicioso projeto cancelado pela Microsoft em 2017. Desta vez, porém, existe uma diferença importante: Phil Spencer não está mais comandando o Xbox, e Kamiya aproveitou a chegada de Asha Sharma para mandar um recado diretamente à nova CEO.
Questionado se já havia conversado com Sharma sobre ressuscitar Scalebound, Kamiya respondeu que ainda não, mas imediatamente aproveitou a oportunidade:
“Não, mas agora é minha oportunidade de dizer mais uma vez que, se eles quiserem fazer isso, vamos fazer acontecer!”
E ele não está sozinho. Kento Koyama, presidente da Clovers, também está disposto a participar, segundo Kamiya.
Kamiya chega a pedir que Asha Sharma veja Scalebound
O momento aconteceu durante uma entrevista concedida ao VGC.
Quando os jornalistas perguntaram diretamente se Kamiya já havia procurado Asha Sharma, o desenvolvedor viu a oportunidade de fazer praticamente uma proposta pública.
Além de dizer que está disposto a retornar, Kamiya brincou pedindo que a publicação colocasse algumas das poucas imagens existentes de Scalebound na matéria para que Asha pudesse dar uma olhada no projeto.
“Koyama também está dentro. Se vocês puderem incluir algumas imagens [de Scalebound] no artigo para Asha, seria útil.”
Pode parecer apenas uma brincadeira durante a entrevista, mas o restante da conversa deixa bastante claro que o interesse de Kamiya não é brincadeira.
“Estou sendo 100% sério”
Kamiya revelou que recentemente participou de um jantar com várias pessoas que trabalharam originalmente em Scalebound.
O jogo não foi o único assunto da reunião, mas inevitavelmente apareceu durante a conversa.
Segundo o diretor, os antigos desenvolvedores lembraram como foi divertido trabalhar no projeto, apesar de também reconhecerem que existiram períodos difíceis durante sua produção.
Para Kamiya, perceber que antigos membros da equipe ainda guardam boas lembranças daquele período foi gratificante.
E então ele voltou a deixar clara sua vontade de terminar o jogo.
“É muito lamentável que o projeto não tenha conseguido ver a luz do dia no final, e isso é algo que, mesmo agora, eu ainda desejo muito conseguir levar adiante, se for possível. Estou sendo 100% sério quando digo isso.”
Mas a Clovers não poderia começar Scalebound amanhã
Existe uma limitação importante nessa história.
Kamiya atualmente lidera a Clovers, estúdio formado após sua saída da PlatinumGames, e a equipe já possui um grande compromisso: o desenvolvimento do novo Okami.
O próprio diretor reconhece que a empresa talvez não esteja em posição de assumir Scalebound imediatamente.
Mesmo assim, ele acredita que projetos aparentemente impossíveis podem eventualmente encontrar uma segunda oportunidade.
E utiliza justamente Okami como exemplo.
Depois de tantos anos, Kamiya finalmente conseguiu retornar a uma de suas criações mais importantes. Agora ele espera que a mesma coisa possa acontecer com Scalebound.
“Acredito fortemente que, se você deseja algo o suficiente, eventualmente encontra uma maneira de fazer acontecer.”
Scalebound era uma das grandes apostas do Xbox One
Para quem não acompanhou aquela geração, é difícil explicar o tamanho da expectativa que existia ao redor de Scalebound.
O jogo foi anunciado na E3 2014 como exclusivo do Xbox One e estava sendo desenvolvido pela PlatinumGames sob direção de Hideki Kamiya.
A proposta combinava combate de ação com elementos de RPG e colocava o jogador no controle de Drew, um jovem conectado ao enorme dragão Thuban.
A relação entre os dois seria uma das principais mecânicas da aventura.
Scalebound voltou a aparecer durante a Gamescom de 2015, inclusive mostrando gameplay e um ambicioso modo cooperativo.
Depois disso, porém, começaram os problemas.
O lançamento acabou adiado para 2017 e, em janeiro daquele mesmo ano, a Microsoft confirmou oficialmente o cancelamento do projeto.
Kamiya já assumiu parte da responsabilidade pelo fracasso
A história de Scalebound também é mais complicada do que simplesmente colocar toda a responsabilidade do cancelamento sobre Microsoft ou PlatinumGames.
Anos depois, Kamiya falou publicamente sobre os problemas enfrentados durante o desenvolvimento e reconheceu que a equipe não possuía experiência suficiente para lidar com determinados desafios técnicos do projeto.
O jogo era extremamente ambicioso para a PlatinumGames daquela época.
Por isso, qualquer eventual retorno dificilmente seria simplesmente continuar exatamente do ponto onde o desenvolvimento terminou em 2017.
Depois de quase uma década, novas equipes, tecnologias e estruturas provavelmente exigiriam que grande parte do projeto fosse reconsiderada.
Asha Sharma agora está do outro lado da mesa
É justamente aqui que a declaração de Kamiya ganha um contexto diferente.
Asha Sharma assumiu o comando do Xbox em fevereiro de 2026, substituindo Phil Spencer. Desde então, a divisão passou por uma reestruturação profunda.
Em julho, Sharma anunciou um processo que prevê aproximadamente 3.200 cortes de empregos, enquanto diferentes estúdios deixaram a estrutura do Xbox. Double Fine e Compulsion Games seguiram para a independência, enquanto outras equipes passaram para novos proprietários.
Ao mesmo tempo, a nova administração também começou a promover outras mudanças na estratégia da plataforma.
Ou seja: o Xbox que cancelou Scalebound em 2017 não possui hoje exatamente a mesma liderança ou estratégia.
Isso não significa que Sharma esteja interessada no projeto.
Até agora, não existe qualquer indicação pública disso.
Mas é justamente essa mudança de comando que levou Kamiya a fazer seu novo apelo.
E a pergunta inevitável: faz sentido para o novo Xbox?
Essa talvez seja a parte mais interessante.
A nova administração do Xbox está tentando reorganizar custos e buscar maior sustentabilidade financeira. Sharma afirmou durante a grande reestruturação que o modelo anterior apresentava aumento de investimentos acompanhado por crescimento limitado e margens inferiores às de negócios comparáveis.
Ressuscitar Scalebound seria justamente assumir novamente um projeto que historicamente ficou conhecido por seu desenvolvimento complicado.
Por outro lado, a situação atual também seria completamente diferente.
Kamiya agora possui sua própria estrutura através da Clovers. O projeto poderia ser redimensionado, tecnologias evoluíram enormemente desde a época do Xbox One e existe uma comunidade que continua falando sobre Scalebound quase uma década depois de seu cancelamento.
O maior argumento a favor de Scalebound talvez seja justamente o fato de que ainda estamos discutindo o jogo em 2026.
Pouquíssimos projetos cancelados conseguem permanecer relevantes durante tanto tempo.
Não existe Scalebound 2 nem novo Scalebound em produção
Também é importante controlar a expectativa.
A declaração de Kamiya não significa que Microsoft e Clovers estejam negociando.
Ele próprio confirmou que ainda não havia procurado Asha Sharma sobre o assunto quando realizou a entrevista.
Não existe anúncio.
Não existe janela de lançamento.
Não existe confirmação de desenvolvimento.
Não existe sequer confirmação pública de que a atual administração do Xbox esteja considerando recuperar a franquia.
O que mudou é que Kamiya colocou sua disposição sobre a mesa de maneira extremamente direta.
Minha opinião
Se existe um jogo cancelado pelo Xbox que merece pelo menos uma segunda análise, é Scalebound.
Não porque aquela versão de 2017 necessariamente funcionaria hoje. Muito pelo contrário: depois de quase dez anos, provavelmente seria melhor repensar boa parte do projeto.
Mas existe algo raro acontecendo aqui.
O público ainda lembra de Scalebound.
O diretor original ainda quer fazer Scalebound.
O presidente do novo estúdio de Kamiya também aceita a ideia.
E Kamiya conseguiu recentemente algo que durante anos também parecia improvável: voltar para Okami.
A grande questão agora é descobrir se isso combina com o Xbox de Asha Sharma. A nova CEO está realizando cortes e tentando mudar profundamente a estrutura financeira da divisão, então aprovar novamente um projeto historicamente problemático não seria uma decisão pequena.
Mas se a Microsoft ainda possui planos para essa propriedade intelectual, dificilmente encontrará alguém mais interessado em finalmente concluir essa história do que o homem que começou tudo.
Nove anos depois, Hideki Kamiya continua esperando. Agora a bola está com o Xbox.