Sony afirma que “não é plausível” possuir jogos digitais do PlayStation
Em documento apresentado à Justiça, empresa argumenta que compras digitais são licenças, e não propriedade do consumidor.
Sony defende que jogos digitais são apenas licenças
A Sony apresentou um argumento que promete gerar bastante discussão entre os jogadores. Em um documento judicial de 21 de agosto, relacionado a uma ação coletiva nos Estados Unidos, a empresa afirmou que não seria plausível considerar que consumidores possuem os jogos digitais comprados na PlayStation Store.
O processo questiona se a loja digital da companhia fornece informações suficientes aos consumidores para cumprir a lei de produtos digitais da Califórnia de 2025.
De acordo com a defesa da Sony, os jogos digitais não são vendidos como propriedade, mas disponibilizados por meio de uma licença de uso. A própria empresa cita os termos do contrato de software do PlayStation, que estabelecem que o software é licenciado ao usuário, e não vendido.
O argumento usado pela Sony
A justificativa apresentada pela empresa utiliza uma situação envolvendo Resident Evil Requiem.
Segundo a defesa, um jogador comprou o jogo em 14 de fevereiro de 2026, enquanto outro consumidor conseguiu comprar o mesmo título na PlayStation Store em 25 de fevereiro, pelo preço de US$ 69,99.
A Sony argumenta que, se o primeiro consumidor tivesse se tornado proprietário do jogo digital em sentido amplo, o segundo não poderia adquirir o mesmo produto posteriormente.
A lógica apresentada pela empresa é que o jogo não pode ser considerado uma propriedade digital exclusiva de uma pessoa, já que milhares de consumidores podem adquirir a mesma cópia digital por meio da loja.
Mas o que o jogador realmente compra?
A discussão é mais complexa do que simplesmente dizer que o consumidor “não possui o jogo”.
Quando alguém compra um título digital, não está comprando os direitos autorais ou a propriedade intelectual da obra. O ponto levantado na ação é outro: quais direitos o consumidor possui sobre a cópia que pagou para utilizar?
Na prática, a preocupação está relacionada principalmente à possibilidade de perder o acesso ao conteúdo comprado caso uma plataforma deixe de disponibilizá-lo ou altere as condições de acesso.
A própria matéria do Insider Gaming destaca que os termos da Sony tratam o software como uma licença, e não como uma venda tradicional.
O que muda para o jogador?
Para o consumidor, o caso pode ser importante porque toca diretamente em uma discussão que está crescendo com a redução da utilização de mídias físicas.
Se a indústria caminhar cada vez mais para jogos exclusivamente digitais, entender exatamente quais direitos o consumidor possui depois de pagar por um jogo se torna cada vez mais importante.
A situação também pode aumentar a pressão para que empresas deixem mais claro, no momento da compra, que o consumidor está adquirindo uma licença de utilização e quais são as condições dessa licença.
Contexto da situação
O caso acontece em um momento em que a Sony vem aumentando sua dependência do mercado digital e discutindo o futuro das mídias físicas.
Segundo o Insider Gaming, a empresa pretende encerrar a produção de discos físicos de seus próprios jogos em 2028, embora tenha indicado que continuará oferecendo suporte aos títulos físicos existentes.
Isso torna a discussão sobre propriedade digital ainda mais relevante. Quanto mais o mercado depender de lojas digitais, maior será a importância de definir o que acontece com os jogos que o consumidor já pagou caso uma plataforma altere sua política ou deixe de oferecer determinado conteúdo.
Minha opinião
Na minha visão, o argumento da Sony pode até fazer sentido dentro da linguagem jurídica utilizada nos contratos, mas não representa necessariamente aquilo que o consumidor entende quando clica em “comprar”.
Quando alguém paga US$ 70 ou até mais por um jogo digital, é natural que espere ter acesso àquele título por muitos anos. O consumidor obviamente não acredita que está comprando os direitos autorais de Resident Evil ou se tornando dono da franquia.
O que ele espera é algo bem mais simples: pagar pelo jogo e continuar podendo jogar aquilo que comprou.
E é justamente aí que essa discussão fica preocupante. Se a indústria pretende abandonar cada vez mais os discos físicos, deveria existir uma garantia muito mais clara sobre a permanência do acesso aos jogos adquiridos.