Uncharted 1, 2 e 3 ganham port nativo para PC com até 120 FPS e melhorias gráficas
Comunidade consegue adaptar The Nathan Drake Collection para Windows sem emulação tradicional de PS4. Projeto já tem versão pública com DLSS, FSR, geração de quadros e suporte a teclado e mouse, mas ainda apresenta problemas de compatibilidade.
A comunidade de desenvolvedores independentes continua quebrando barreiras que até pouco tempo pareciam impossíveis. Desta vez, chegou a vez de Uncharted: The Nathan Drake Collection, coletânea que reúne os três primeiros jogos da franquia, ganhar um port não oficial para PC. O desenvolvedor conhecido como SuperMedo, responsável também por um conhecido projeto de Bloodborne para Windows, disponibilizou nesta quinta-feira, 15 de outubro de 2026, a primeira versão pública da ferramenta, permitindo executar as versões remasterizadas de Uncharted: Drake's Fortune, Uncharted 2: Among Thieves e Uncharted 3: Drake's Deception diretamente no computador.
O projeto utiliza o código original de PlayStation 4, aproveita a compatibilidade da arquitetura x86-64 com os processadores modernos e traduz os comandos gráficos para Vulkan. Na prática, isso significa que não estamos falando de um emulador convencional tentando reproduzir integralmente o PS4. O objetivo é adaptar os jogos para funcionar no ambiente do Windows, oferecendo recursos como 120 FPS, NVIDIA DLSS, AMD FSR 3.1 e FSR 4, geração de quadros e suporte a teclado, mouse e controles.
Os três primeiros Uncharted agora fazem parte de um port para Windows
A novidade foi confirmada através do repositório oficial do projeto, chamado Uncharted: The Nathan Drake Collection for Windows, desenvolvido por Mohammed Albarghouthi, conhecido como SuperMedo. A versão pública 0.3 foi disponibilizada no GitHub e reúne os três jogos em uma única interface. Segundo o desenvolvedor, basta utilizar uma cópia própria e descriptografada da coletânea de PS4, selecionar a pasta correspondente no launcher e escolher qual aventura iniciar. O projeto não distribui os arquivos comerciais dos jogos e não possui qualquer associação oficial com a Sony, Naughty Dog ou Bluepoint Games.
A escolha de trabalhar com The Nathan Drake Collection é especialmente interessante porque estamos falando das versões remasterizadas lançadas originalmente para PlayStation 4 em 2015. A coletânea foi produzida pela Bluepoint Games e trouxe melhorias gráficas, mudanças nos controles, texturas refinadas e apresentação em 1080p com alvo de 60 FPS. Portanto, o trabalho comunitário não está tentando portar diretamente os executáveis originais de PS3, mas aproveitar uma versão já adaptada para uma arquitetura de processamento mais próxima da utilizada pelos computadores modernos.
Não é exatamente uma recompilação tradicional
Existe uma diferença técnica importante que precisa ser explicada. Muita gente está chamando essas novidades de recompilações, mas o método utilizado pelo projeto de SuperMedo é mais próximo de um port com execução direta de código x86-64 e uma camada específica de compatibilidade. PlayStation 4 e computadores modernos utilizam processadores da mesma família arquitetural, permitindo reaproveitar boa parte das instruções originais do jogo sem precisar traduzir uma CPU completamente diferente durante a execução.
Entretanto, isso não significa que basta transformar um arquivo de PS4 em um executável do Windows. O jogo continua esperando encontrar bibliotecas, funções de memória, gerenciamento de arquivos, áudio, entrada de controles e recursos gráficos próprios do console. O port precisa substituir ou adaptar esses componentes para que o programa funcione no computador. Na parte gráfica, o projeto aproveita trabalhos desenvolvidos para o shadPS4 e realiza a tradução necessária para Vulkan. O código original do jogo continua sendo aproveitado, mas o ambiente em que ele funciona precisa ser reconstruído.
120 FPS, DLSS, FSR 4 e geração de quadros
Um dos aspectos mais interessantes é a quantidade de recursos anunciados logo na primeira versão pública. Segundo a documentação, o programa permite selecionar taxas de 60 ou 120 FPS, com configurações superiores ainda consideradas experimentais. Também existem opções de antisserrilhamento TAA, NVIDIA DLSS com DLAA, AMD FSR 3.1 e AMD FSR 4. O sistema de geração de quadros oferece FSR 3 em GPUs compatíveis e DLSS Frame Generation nas placas NVIDIA das séries RTX 40 e RTX 50, respeitando as capacidades de cada geração.
É importante diferenciar taxa de quadros realmente produzidos pelo jogo de geração de quadros. Quando o jogo executa a 120 FPS reais, sua apresentação está sendo atualizada nessa frequência. Já com frame generation, quadros intermediários são sintetizados para aumentar a fluidez visual, sem necessariamente elevar na mesma proporção a frequência de processamento interno da gameplay. São recursos diferentes e seus resultados podem variar dependendo do hardware, das configurações e da estabilidade do port.
Uncharted 1 já apareceu rodando a 1440p e 120 FPS
O projeto também começou a receber demonstrações de pessoas que baixaram a versão pública. Um usuário identificado como ChrisJohnBlack publicou um teste de Uncharted: Drake's Fortune Remastered funcionando no computador a 1440p e aproximadamente 120 FPS, utilizando teclado e mouse. Segundo ele, o teste foi realizado em uma máquina equipada com Ryzen 7 9800X3D, RTX 5070 e 32 GB de RAM. O resultado é interessante porque deixa de ser apenas uma demonstração apresentada pelo criador do projeto e passa a contar com relatos de utilização por outras pessoas.

Isso não significa que qualquer computador atingirá o mesmo desempenho. Estamos falando de uma configuração bastante potente, e ainda não existem testes suficientes para determinar como a trilogia se comporta em uma grande variedade de processadores e placas de vídeo. Também não é correto afirmar que todos os três jogos já foram demonstrados com o mesmo nível de estabilidade. O teste independente citado é especificamente de Drake's Fortune.
O port também recebeu suporte completo a teclado e mouse
Outra novidade importante é a possibilidade de jogar a trilogia utilizando teclado e mouse, algo que naturalmente não existia nas versões originais de console. O launcher permite configurar os comandos, utilizar controles convencionais e adicionar os jogos à biblioteca da Steam por meio de atalhos. A documentação também menciona suporte ao movimento de câmera pelo mouse em Uncharted 3, uma implementação especialmente interessante para quem prefere jogar aventuras de ação em terceira pessoa utilizando os controles tradicionais do PC.
O programa também possui sistema de atualizações automáticas. Como estamos falando de um projeto recente, isso pode facilitar a distribuição das próximas correções sem exigir que o usuário refaça manualmente toda a configuração a cada versão.
Mas atenção: os três jogos ainda não estão comprovadamente perfeitos
Aqui está a principal ressalva da notícia. Embora o desenvolvedor afirme que os três jogos já funcionam através do launcher, ainda não existe validação independente suficiente para garantir que Drake's Fortune, Among Thieves e Drake's Deception possam ser terminados do início ao fim sem problemas. Inclusive, o próprio GitHub já registra usuários relatando dificuldades, incluindo carregamento infinito no primeiro jogo, encerramento imediato dos outros dois em determinadas configurações e travamentos depois de uma cena cinematográfica.
A documentação também reconhece problemas gráficos em Uncharted 3, particularmente efeitos verdes ou pretos que podem aparecer rapidamente em determinados personagens, como Sully durante a sequência de Cartagena. Esse comportamento também foi observado em trabalhos relacionados ao shadPS4 e continua sendo investigado. A versão 0.3 já corrigiu um problema específico de travamento relacionado ao processamento gráfico naquela região, mas isso não significa que todos os bugs foram eliminados.
Outro desenvolvedor também estava trabalhando na trilogia
Existe ainda um detalhe que ajuda a explicar as notícias que começaram a circular em 14 de outubro. Um desenvolvedor conhecido como Mindro também vinha divulgando testes relacionados à execução da Nathan Drake Collection no PC. Seu trabalho inicialmente estava associado a modificações do shadPS4, antes de anunciar pesquisas voltadas para uma implementação nativa. Os primeiros vídeos foram apresentados como experimentos de compatibilidade, com objetivos envolvendo inicialização, bibliotecas do PS4, gráficos e correção de erros.
É importante não confundir os dois projetos. Os primeiros testes divulgados por Mindro não representavam uma trilogia completa e estável. Já SuperMedo anunciou posteriormente uma versão pública própria que pretende executar os três jogos, aproveitando conhecimentos e ferramentas desenvolvidos na cena, inclusive pesquisas realizadas com o shadPS4. A documentação de SuperMedo reconhece expressamente o trabalho de Mindro entre as referências utilizadas.
SuperMedo também está por trás de um conhecido port de Bloodborne
O nome do desenvolvedor provavelmente será familiar para quem acompanha a recente onda de ports comunitários. SuperMedo também mantém uma versão de Bloodborne para Windows, baseada em trabalhos anteriores da comunidade. O projeto reúne recursos como DLSS, FSR, modificações gráficas, suporte a mods, taxas de quadros elevadas e ferramentas próprias de configuração.
A experiência adquirida com esse trabalho ajuda a entender por que o novo projeto de Uncharted já apresenta tantos recursos no launcher. Parte da infraestrutura utilizada no port de Bloodborne, assim como pesquisas sobre gráficos, bibliotecas e execução de código de PS4 em Windows, também está sendo aproveitada na adaptação da trilogia de Nathan Drake. Isso não garante automaticamente a compatibilidade entre jogos diferentes, mas evita a necessidade de desenvolver absolutamente tudo novamente.
A Sony nunca lançou oficialmente os três primeiros Uncharted no PC
Talvez esse seja o aspecto mais simbólico da notícia. Em outubro de 2022, a Sony lançou oficialmente UNCHARTED: Coleção Legado dos Ladrões para computadores, incluindo Uncharted 4: A Thief's End e Uncharted: The Lost Legacy. Entretanto, os três primeiros capítulos ficaram de fora, criando uma situação curiosa: jogadores de PC receberam as aventuras posteriores da franquia sem acesso nativo oficial aos acontecimentos que estabeleceram a história de Nathan Drake.
Na época, a Naughty Dog explicou que considerava os três primeiros jogos narrativamente relevantes, mas avaliava que eles necessitariam de uma modernização visual significativa para atender às expectativas do público de PC. Por isso, a empresa optou por iniciar sua presença no computador com os títulos mais recentes. A decisão comercial pode ter feito sentido para o estúdio, mas deixou uma lacuna importante no catálogo.
Agora, mais de quatro anos depois do lançamento oficial da Coleção Legado dos Ladrões no PC, a comunidade está tentando preencher justamente esse espaço. A diferença é que não estamos falando de remakes produzidos com orçamento de uma grande empresa, mas de adaptações que reaproveitam as versões remasterizadas existentes e desenvolvem a compatibilidade necessária para executá-las no Windows.
Quais são os requisitos para executar o projeto?
De acordo com a documentação publicada por SuperMedo, o programa é destinado ao Windows 10 de 64 bits, a partir da versão 1903, ou Windows 11. Também é necessária uma placa de vídeo compatível com Vulkan 1.3, drivers atualizados e aproximadamente 8 GB de memória disponível considerando RAM e arquivo de paginação. Isso representa apenas os requisitos informados para o funcionamento da ferramenta e não uma garantia de 60 ou 120 FPS em qualquer configuração que atenda a esses valores.
O port também exige arquivos próprios e descriptografados da coletânea de PS4, não acompanhando os jogos comerciais. Portanto, não estamos falando de um lançamento gratuito da trilogia pela comunidade. O projeto disponibiliza o software de adaptação, enquanto o usuário precisa fornecer separadamente os arquivos compatíveis da obra que possui.
A cena de ports comunitários está avançando rapidamente
Uncharted chega justamente em um momento de grande movimentação na comunidade de preservação e engenharia reversa. Recentemente vimos Bloodborne ganhar soluções de execução no Windows, God of War III Remastered alcançar um port comunitário jogável do início ao fim e inFAMOUS Second Son começar a apresentar resultados interessantes em testes. Agora, a trilogia original de Uncharted entra nessa mesma onda.
O mais interessante é que essas tecnologias estão permitindo explorar um caminho diferente da emulação tradicional. Em vez de necessariamente construir uma solução genérica capaz de reproduzir todo o console, desenvolvedores podem trabalhar especificamente com as necessidades de cada jogo, reaproveitando instruções de CPU, substituindo bibliotecas e corrigindo incompatibilidades individualmente. Isso não torna o trabalho simples, mas pode oferecer vantagens importantes de desempenho e preservação quando a implementação amadurece.
Minha opinião
Para mim, é impressionante ver o ritmo em que a comunidade está avançando. Durante anos, a trilogia original de Uncharted permaneceu sem uma versão oficial para PC. A Sony levou o quarto jogo e The Lost Legacy para a plataforma, mas nunca disponibilizou os três primeiros capítulos. Agora temos um desenvolvedor independente publicando uma ferramenta que já demonstra avanços reais na execução desses clássicos.
O detalhe que mais me chama atenção é justamente a quantidade de recursos que esses projetos estão incorporando. Não estamos falando apenas de abrir o jogo e conseguir andar pelo cenário. Estamos vendo suporte a taxas de quadros maiores, mouse, teclado, novas soluções de imagem e ferramentas que fazem parte da experiência moderna de jogar no PC.
Evidentemente, ainda precisamos ter cautela. Não vou afirmar que toda a trilogia está perfeita quando já existem usuários relatando problemas de inicialização e travamentos. Quero ver testes completos, diferentes configurações funcionando e pessoas conseguindo terminar os três jogos antes de chamar isso de uma alternativa totalmente madura ao PS4.
Mas o avanço já merece atenção. E, principalmente, demonstra como o conhecimento acumulado nesses projetos pode ser reaproveitado para desenvolver novas soluções de preservação.